Vaidade tem limite: Até Felipe Neto, que não é jornalista, entendeu a decisão editorial correta do Intercept. Por Joaquim de Carvalho

Atualizado em 31 de outubro de 2020 às 5:59
Glenn e Felipe Neto

Glenn Greenwald é um dos melhores jornalistas da atual geração. Corajoso, honesto e preparado, ele fez trabalhos que lhe valeram o Pulitzer, prêmio que dispensa aposto.

Dito isso, é necessário registrar que, no caso Intercept, ele está errado. Colocou sua vaidade pessoal acima dos interesses públicos, no caso dos Estados Unidos e mesmo do planeta.

Não é pouca coisa.

Todo jornalista sabe que, na imensa maioria das vezes, a informação que lhe chega às mãos é produto de algum interesse. Às vezes, quando uma fonte lhe entrega essas informações, desafia: quero ver se você tem coragem de publicar.

Não sei se Glenn foi desafiado, mas a insistência dele e o barulho que fez com a decisão editorial do Intercept levam a crer que sim.

No caso, nem há informações exclusivas que tenham sido passadas a ele por uma fonte. O artigo, segundo o rascunho publicado hoje, é uma análise sobre a razão de importantes veículos de comunicação desprezarem e-mails que revelariam movimento de Biden para os EUA favorecerem empresas da Ucrânia e da China que mantêm vínculo com o filho do ex-vice-presidente e candidato agora a titular da Casa Branca.

É uma notícia importante, mas por que publicar às vésperas da eleição nos Estados Unidos?

É uma questão que também precisa ser respondida. A quem interessa essa publicação agora? Sabemos quem ganha com ela: a campanha de Trump.

Qualquer editor se faria esta pergunta: a quem interessa?

Mas Glenn não aceitou a ponderação.

Felipe Neto, que não é jornalista, compreendeu bem a polêmica e pontuou:

Eu respeito muito o que fez o Glenn em se demitir do Intercept. Entendo. É isso.

Agora…

Esses não são tempos comuns. Estamos em guerra contra uma extrema direita doentia e assassina.

Eu não compreendo imparcialidade editorial em tempos como esse.

NADA é pior que Trump.

Nada.

Então… Imaginando um cenário onde tivéssemos um 2° turno entre Bolsonaro e José das Couves…

Eu sou o editor-chefe de um jornal.

A poucos dias das eleições, um jornalista da equipe decide publicar uma matéria devastadora contra o Couves?

Irmão, não.

Olha em volta primeiro.

Você pode julgar isso antidemocrático, mas todo veículo possui linha editorial, possui um caminho. Todos.

Quem acha que não, vive totalmente fora da realidade.

E não é que “vale tudo” pra derrubar um filho da puta fascista. Mas com certeza vale muita coisa.

Só pra finalizar: pode ser que eu venha a mudar de opinião sobre isso, como mudo sobre muita coisa.

Hoje foi a primeira vez na vida q pensei no assunto. Estou aberto a ler e me aprofundar mais sobre.

Glenn merece um lugar de honra no panteão dos jornalistas, mas não está acima de crítica.

Nessa toada, o artigo seguinte de Glenn, como disse um membro do DCM TV, será escrever um texto com título:

“Trump x Biden: uma escolha muito difícil”…

.x.x.x.

Atualização: Felipe Neto acabou recuando, depois de uma conversa no Twitter com Glenn Greenwald. Ele se explicou por meio deste tuíte:

“Depois de uma breve conversa aqui no Twitter com o Glenn Greenwald, fui apresentado a uns pontos interessantes de reflexão. Como falei, estou sempre disposto a mudar de opinião, principalmente quando se trata de algo em que sou leigo. Vou estudar mais sobre isso. Até lá, apaguei os tuítes.”

Direito do Felipe Neto se arrepender do que escreveu. Mas, se estudar melhor, verá que Glenn tem o direito de deixar o Intercept. Afinal, houve uma quebra no padrão de relacionamento.

Por outro lado, ele entenderá que o Intercept também tem o direito de zelar por sua integridade editorial, construída com ajuda do próprio Glenn.

Faltou ao jornalista norte-americano maturidade profissional.