O tarifaço de Trump: o rato pariu um rato. Por Edward Magro

Atualizado em 3 de abril de 2025 às 11:32
Donald Trump durante o anúncio de medidas do “tarifaço” na Casa Branca. Foto: Brendan Smialowski/AFP

O tarifaço de Trump, anunciado ontem pelo próprio, numa sessão mambembe ao estilo powerpoint do Dallagnol, provocou uma tempestade de reações exaltadas na imprensa mundial e nos mercados financeiros. Não sei ao certo se pelo amadorismo e tosquice da comunicação trumpiana ou pelo negacionismo histórico da mídia hegemônica, que finge desconhecer o único método empregado pelos EUA para resolver seus problemas internos: socializar o boleto e exportar suas crises econômicas para o resto do mundo – um monótono samba desafinado, de uma nota só.

Manchetes alarmistas apostaram em uma “recessão dolorosa”, as bolsas despencaram puxadas pela Apple e outras gigantes da tecnologia, e analistas se apressaram a prever cenários apocalípticos. No meio da histeria, detalhes surreais emergiram, como tarifas incidindo sobre ilhas desabitadas por humanos e povoadas apenas por pinguins, enquanto o Congresso estadunidense, em um gesto de coreografia política, votava unanimemente contra as tarifas impostas ao Canadá, reforçando a previsibilidade desse ciclo de excessos e recuos.

Apesar do furdunço midiático, o que realmente mudou? Muito pouco.

A história econômica dos Estados Unidos é um registro contínuo de protecionismo e unilateralismo. Trump 2 não inaugura uma nova era; apenas reencena um padrão que se repete há décadas. Nixon, nos anos 70, tomou medidas muito mais drásticas ao abandonar o padrão dólar-ouro e impor um tarifaço generalizado. Carter, em 1979, elevou os juros de forma abrupta, desestabilizando economias endividadas e sendo descrito à época como uma “terceira bomba atômica”. Reagan seguiu com um unilateralismo agressivo, sufocando setores tecnológicos emergentes de países aliados, como o Brasil.

A reação dos mercados financeiros seguiu o roteiro previsível: pânico imediato, liquidação de ativos e previsões sombrias. No entanto, a bolsa vive de expectativas que ela mesma cria, desconstrói e reconstrói. As quedas abruptas raramente refletem mudanças estruturais profundas, sendo apenas ajustes momentâneos dentro de um ciclo especulativo constante. O tarifaço, em si, tem impactos reais limitados. Nem mesmo a relação com a China sofrerá grandes abalos; a economia chinesa dispõe de mecanismos de amortecimento e, como ocorreu em disputas anteriores, encontrará formas de contornar as restrições. O pânico das bolsas é apenas mais um dia de bolsa sendo bolsa – um universo onde previsões catastróficas são criadas, descriadas e recriadas ao sabor do vento.

Donald Trump durante anúncio de novas tarifas em produtos importados pelos Estados Unidos. Foto: Reprodução

No Brasil, a repercussão é ainda menor. Apesar do alarde inicial, o tarifaço pode até abrir oportunidades para a indústria nacional. A guerra comercial entre EUA e China historicamente desloca fluxos de produção e cria espaço para exportadores brasileiros em setores específicos. A experiência mostra que o Brasil, distante dos epicentros dessas disputas, muitas vezes encontra brechas para ampliar seu acesso a mercados. O real impacto, se houver, só será sentido a longo prazo e dependerá de como o governo brasileiro negociará essas dinâmicas.

No Congresso americano, a votação contra as tarifas impostas ao Canadá foi apenas um recado político, sem efeitos práticos imediatos. Esse tipo de reversão mostra que, mesmo dentro dos EUA, há resistência ao protecionismo mais radical, reforçando que os mecanismos institucionais seguem funcionando e que as medidas de Trump não são tão definitivas quanto parecem.

A reação ao tarifaço de Trump ilustra, mais uma vez, a capacidade da política e dos mercados de dramatizar eventos corriqueiros. Tirando a Europa, que de fato tem razões para se preocupar com o enfraquecimento do multilateralismo, o restante do mundo assiste a mais um episódio previsível da política econômica americana. No dia seguinte, a bolsa recuperará parte das perdas, os investidores encontrarão novas narrativas para fisgar ainda mais a grana dos incautos, e a economia global seguirá seu curso.

Enfim, o tarifaço não é um abalo sísmico; é apenas mais um dia de EUA sendo EUA.

Conheça as redes sociais do DCM:
⚪️Facebook: https://www.facebook.com/diariodocentrodomundo
🟣Threads: https://www.threads.net/@dcm_on_line