
Por Carolina Bataier
Na noite desta terça-feira (1), o Cordão da Mentira saiu pelo centro de São Paulo em seu 12º desfile e escracho, marcando os 61 anos do golpe de 1964.
Movimento que une arte e protesto para lembrar das atrocidades cometidas pelos agentes da ditadura militar, o Cordão da Mentira denuncia as violações de direitos humanos cometidas pelo Estado ainda hoje.
Mães e familiares de jovens vítimas da violência policial caminhavam devagar, em silêncio, abrindo o desfile. Nas mãos, as mulheres – maioria no grupo – levavam folhas de espada de São Jorge e cartazes com fotos dos parentes assassinados.
Em uma das primeiras filas, Bruna da Silva caminhava segurando o uniforme do filho Marcos Vinicius da Silva, morto em 2018 durante uma operação da Polícia Civil e do Exército no complexo da Maré, no Rio de Janeiro (RJ). O jovem de 14 anos estava indo para a escola quando foi alvejado pelos policiais.

A camiseta, com a mancha de sangue de mais uma vítima da violência policial, virou a bandeira da mãe, que há quatro anos participa do ato, realizado sempre no dia 1 de abril.
“É muito bom estar aqui. Aqui é gente da gente, pessoas que entendem, pessoas que são alvo igual a gente”, diz.
Para ela, o cordão é uma oportunidade de chamar a atenção do poder público. “A gente queria falar para os governantes desse país que a segurança pública não pode ser resumida somente em tiro e operação”, diz.
“É uma mistura de sentimentos, a gente se junta com outras mães para chorar a perda de cada filho”, conta Cecília Lopes, mãe de Lucas Lopes, morto em 2019, em Sorocaba (SP). Ele foi espancado por um policial militar. “A gente sabe muito bem a dor de cada uma”.
Para adiar o fim do mundo
Ao denunciar as violências do regime militar, o Cordão da Mentira se torna um espaço de defesa dos direitos humanos, unindo diversas bandeiras. Neste ano, o tema da ação foi “Desfile Para Adiar o Fim do Mundo”, inspirado no livro do escritor indígena Ailton Krenak, Ideias para Adiar o Fim do Mundo.
“Krenak nos avisa: se as pessoas não tiverem vínculos profundos com sua memória ancestral, com as referências que dão sustentação a uma identidade, vão ficar loucas neste mundo maluco que compartilhamos”, diz Moara Tupinambá, no carro de som, antes do início do desfile.
Casé Angatu, indígena do território indígena Tupinambá de Olivença, da Bahia, lembrou da urgência da demarcação das Terras Indígenas (TIs).
“Pedimos o fim da violência sobre nossos territórios, as prisões, as morte e demarcação imediata”, disse. Ele lembra que a polícia militar da Bahia é líder em casos de violência.
“Eles acham que a ditadura acabou em 85, mas a ditadura existe desde 1500 e continua existindo”, ressalta. “Para a gente que é pobre, indígena, pessoas pretas, periféricas e pobres, a ditadura nunca acabou.”
O Cordão da Mentira também uniu falas em solidariedade ao povo palestino, contra a anistia aos golpistas do 8 de janeiro e pela exoneração do atual secretário de segurança do estado de São Paulo, Guilherme Derrite.
O desfile teve a presença de movimentos populares como o Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST), Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e Movimento Negro Unificado (MNU).
Publicado originalmente em Brasil de Fato
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