Sargento da Marinha cumpre prisão disciplinar após ser investigado por críticas a Bolsonaro
Enquanto o Exército decidiu não punir o general da ativa Eduardo Pazuello, ex-ministro da Saúde, a Escola Naval do Rio de Janeiro, instituição de ensino superior da Marinha, mantém em prisão disciplinar o terceiro sargento Michel Uchiha, alvo de duas sindicâncias internas por críticas ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido) nas redes sociais durante a campanha eleitoral do ano passado.
Leia, abaixo, trechos da reportagem de João Paulo Saconi no Globo:
O primeiro procedimento investigava, segundo a Marinha, “eventuais declarações ofensivas em redes sociais” e o segundo, no qual se insere a punição, concluiu que o militar mentiu em uma audiência disciplinar sobre o caso, realizada em janeiro deste ano. Um habeas corpus expedido pela Justiça Federal do Rio interrompeu o cumprimento da detenção, que poderia ter durado dois dias.
A investigação sobre Uchiha se relaciona ao episódio em que Bolsonaro se irritou com um questionamento de um repórter do GLOBO sobre os R$ 89 mil repassados, em cheques à primeira-dama Michelle Bolsonaro por Fabrício Queiroz, ex-assessor parlamentar do senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), e pela mulher dele. A pergunta viralizou nas redes sociais em agosto após o presidente tê-la ignorado e respondido que estava “com vontade de encher a tua boca (do profissional) na porrada”. Uchiha teria publicado sobre o tema e, então, começou a ser investigado. (…)
Ao GLOBO, o terceiro sargento afirmou na terça-feira, antes de se apresentar à Escola Naval, que sua punição viola direitos fundamentais garantidos pela Constituição, como a liberdade de expressão. Uchiha também disse ser vítima de perseguição e reclamou por não ter sido ouvido sobre ter faltado com a verdade na audiência disciplinar, já que a audiência da qual participou se referiu apenas às mensagens:
— Fui perseguido dentro da Escola Naval, certamente por minhas convicções ideológicas ou mesmo por eu ser homossexual declarado, o que incomoda muitos oficiais mais antigos — disse o militar, completando: — Como não conseguiram comprovas as infrações para a punição, abriram uma segunda sindicância na qual nem mesmo tive direito a defesa, algo extremamente inconstitucional. É normal alguém ser punido sem direito a ampla defesa e ao contraditório? Eu sofri por omissão, sem tomar ciência desta segunda sindicância. Fui punido sem ao menos ter tido uma audiência específica sobre esse caso. (…)