Como Agustin Fernandez, maquiador e melhor amigo da primeira-dama, ganhou dinheiro apoiando Bolsonaro

Atualizado em 17 de setembro de 2020 às 7:31
Bolsonaro com Agustin e Michelle na festa do maquiador no Alvorada (Fotos arquivo pessoal)

Por Caique Lima

Agustin Fernandez, melhor amigo e maquiador da primeira-dama, Michelle Bolsonaro, descreve-se como um “empresário de sucesso”, segundo seu próprio livro.

Atualmente, possui um loja, a “Loja do Divo”, que vende cosméticos, maquiagens, livros e cursos; mais de 2,8 milhões de seguidores no Instagram e uma íntima relação com a família do presidente.

Ele se descreve como “ambicioso” e diz que seu “sucesso” é fruto de seu trabalho.

Mas não é bem assim.

Agustin Fernandez já era um maquiador relativamente famoso: tinha sua foto estampada em notícias e promovia eventos de maquiagem para centenas de pessoas. Mas ao apoiar Bolsonaro, o interesse por ele explodiu.

Dados do Google Trends, ferramenta que mostra o volume de pesquisas de um termo ou assunto no buscador, mostram que o pico de buscas pelo nome do maquiador se deu em outubro de 2018, mês em que Bolsonaro foi eleito:

No fim de setembro, Agustin declarou apoio a Bolsonaro e foi promovido pelo seu filho, Eduardo, que disse que o maquiador “quebra paradigmas”.

Em outubro, o maquiador até marcou um encontro, levando presentes para Bolsonaro e para a primeira-dama.

À época, Agustin possuía cerca de 1,4 milhão de seguidores no Instagram.

Ele afirmou que, com o apoio, perdeu cerca de 300 mil seguidores nas redes sociais, mas ganhou mais de 1 milhão “até o outro dia”.

“Eu migrei de público, do público de esquerda que milita muito e sabota, mas não consome, porque não têm bala na agulha [dinheiro]. Perdi uma audiência que não consumia”, disse em entrevista a Eduardo Bolsonaro.

Paralelamente, o maquiador passou a divulgar exaustivamente sua loja nas redes.

A “Loja do Divo”, criada em 2017, também despertou maior interesse dos brasileiros neste período.

Dados do Trends mostram que os maiores volumes de busca foram entre outubro, mês em que Bolsonaro foi eleito, e os meses subsequentes:

Ou seja, Agustin abdicou a venda de seus produtos para um grupo que, segundo ele, “não consumia”, e migrou para um público-alvo de homens que ganham mais de cinco salários mínimos (o eleitorado de Bolsonaro) que compra maquiagens para suas respectivas esposas.

Até hoje a família Bolsonaro ajuda a promover o maquiador.

Em 22 de agosto, Bolsonaro e a primeira-dama fizeram uma festa para Agustin no Planalto. Neste dia e no dia seguinte, Agustin conseguiu mais de 4 mil seguidores no Instagram com as notícias da comemoração.

A fama do maquiador, no entanto, parece ter afetado o desempenho de sua loja.

Nos últimos 3 anos, a “Loja do Divo” tem colecionado críticas de clientes: são mais de 32 reclamações no Reclame Aqui.

Os problemas mais comuns são: Atraso na entrega (5), produto não recebido (2), problemas com atendimento (6) e há outras reclamações sobre a qualidade dos produtos e problemas com os funcionários.

A loja sempre teve uma avaliação regular (6/10) no site, mas nos últimos 6 meses ela diminuiu: 5.3/10 pelo site e 3.7 pelos clientes.

A “bicha” homofóbica

“Eu conheci o teu pai lá na época em que o Jean Wyllys cuspiu na cara dele. Eu falei ‘gente, tadinho desse homem. Levou cuspe na cara dessa outra bicha insuportável, que nem eu que sou bicha aguento'”, disse Agustin a Eduardo Bolsonaro.

O maquiador conheceu Bolsonaro em 2016, na votação do golpe de Dilma, e se interessou politicamente por ele neste ano. Só dois anos depois, em 2018, foi que o conheceu pessoalmente e se entrosou na família.

Nascido no Uruguai, o maquiador se prostituiu “para sobreviver”, segundo ele. À época, chegou a votar em Mujica nas eleições presidenciais, mas se tornou conservador após se desgostar da comunidade LGBT.

Ele veio para o Brasil no início da década e trabalhou num salão de beleza por ser algo que “tinha facilidade”.

Agustin ganhou fama nas redes com tutoriais de maquiagem e, posteriormente, com sua ideologia conservadora.

No período em que aderiu ao bolsonarismo, foi considerado “oportunista” por grande parte da comunidade “LGBT1234”, como gosta de chamar o grupo.